Mar 8, 2026

Dia Internacional da Mulher


«Josephinas», primeiras alunas e primeiras professoras do Instituto Industrial e Comercial do Porto / ISEP: notas para uma história da presença feminina no ensino técnico

 

O presente texto analisa a presença feminina no Instituto Industrial e Comercial do Porto, antecessor do atual Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP), articulando dois momentos fundamentais: o acesso das primeiras alunas, na segunda metade do século XIX, e a integração das primeiras professoras, entre as décadas de 1930 e 1970. Inscreve‑se no cruzamento entre história da educação técnica, história das mulheres e estudos de género, com base em fontes de arquivo até agora pouco exploradas.

No quadro jurídico e cultural definido pelo Código Civil de 1867, que consagrava a subordinação legal das mulheres ao pai e ao marido, o acesso feminino à formação técnica e científica constituía uma exceção e implicava a negociação de fortes constrangimentos familiares e sociais. A consulta sistemática de livros de matrículas, registos de exames, menções honrosas e documentação administrativa permitiu identificar 13 alunas que frequentaram o ensino industrial e comercial entre 1852 e 1900, bem como caracterizar os seus percursos escolares e estratégias de inserção num sistema pensado para estudantes do sexo masculino.​

A primeira aluna identificada, Josephina Baptista Azevedo da Cruz, matriculada em 1884‑1885 como aluna voluntária, evidencia um investimento deliberado em saberes técnicos e científicos – Física, Química, Matemática, Desenho, Economia e Contabilidade – compatibilizado com a atividade profissional como professora de instrução primária. Outros casos, como os das irmãs Guilhermina e Maria Arminda da Costa Prata, que obtêm classificações elevadas em Química e prosseguem estudos na Escola Médico‑Cirúrgica do Porto, ilustram articulações entre ensino industrial, formação superior e exercício profissional autónomo, desafiando a segmentação de género no acesso à medicina e às profissões liberais.​

A análise dos regimes de frequência (voluntária, livre, estranha) permite compreender a construção gradual de uma presença feminina marcada por soluções híbridas, assentes na inscrição em cadeiras avulsas e nem sempre conducente à conclusão formal de cursos. A diversidade de itinerários – do Curso Superior de Comércio à Química, Tecnologia, Guardalivros ou Desenho – revela, contudo, um alargamento progressivo do leque de competências técnicas acessíveis às mulheres, em particular na confluência entre áreas comerciais, científicas e artísticas.​

A partir da década de 1930, a presença feminina no Instituto Industrial do Porto torna‑se visível também ao nível do corpo docente, sobretudo na área da Química. A categoria de assistente, entendida como auxiliar docente de um grupo científico, desempenha aqui um papel central enquanto espaço de entrada e afirmação profissional em contextos dominados por docentes masculinos.​

Maria Luiza das Dores Costa, engenheira químico‑industrial, assume em 1942 funções de assistente temporária das cadeiras de Química Geral e de Química Inorgânica e Orgânica do 7.º grupo, acumulando ainda a regência de cadeiras de Química Analítica e Química Industrial na ausência do titular. A sua formação, que combina curso preparatório em ciências, curso de Química Laboratorial e tirocínio em comissões pedagógicas, bem como a posterior integração nos quadros técnicos da Direção‑Geral dos Serviços Industriais e a participação na Sociedade Portuguesa de Química e Física, exemplifica trajetórias femininas que articulam docência, prática laboratorial e serviço técnico especializado.​

A substituição de Maria Luiza das Dores Costa por Estela Correia Alves Monteiro, em 1950, permite observar a consolidação de carreiras docentes femininas de maior duração no Instituto Industrial do Porto. Estela Monteiro, engenheira químico‑industrial formada pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, evolui de assistente extraordinária a professora auxiliar e, posteriormente, professora ordinária do 7.º grupo, mantendo atividade docente já no quadro do ISEP e assumindo funções em órgãos de governação académica como o Conselho Científico e o Conselho Pedagógico.​

A leitura conjunta destas trajetórias, das primeiras alunas oitocentistas às primeiras professoras de meados do século XX, sugere uma temporalidade longa de abertura do ensino industrial às mulheres, marcada por avanços graduais, persistência de assimetrias e forte exigência de excelência académica para as pioneiras. Os dados mais recentes indicam uma feminização crescente do ISEP, com aumento significativo do número de docentes e trabalhadoras não docentes, ainda que subsistam desigualdades entre áreas científicas e categorias profissionais.

Ao reinscrever estas figuras na narrativa institucional, o Museu do ISEP contribui para a revisão da história do ensino técnico em Portugal, deslocando o foco da exclusiva centralidade masculina e evidenciando o papel das mulheres na construção de saberes científico‑tecnológicos e na modernização industrial. Simultaneamente, fornece recursos para uma reflexão crítica sobre as continuidades e ruturas nas formas de exclusão, participação e reconhecimento das mulheres nas engenharias, abrindo caminho a novas investigações e a práticas de memória com impacto pedagógico e político.

 

Referências Bibliográficas

Instituto Politécnico do Porto. (2016, 18 de janeiro). Museu do Instituto Superior de Engenharia do Porto. Instituto Politécnico do Porto. https://www.ipp.pt/comunidade/menu-comunidade/cultura/equipamentos/museu-do-isep

Instituto Superior de Engenharia do Porto. (2025). Museu ISEP [Site institucional]. https://www2.isep.ipp.pt/museu/

Moreira, A. M. A. (2021). Josephina’s: as alunas do ensino industrial no Porto – 2.ª metade do séc. XIX [Relatório de estágio de mestrado, Escola Superior de Educação do Politécnico do Porto].​

Portugal. (1867). Código civil portuguez (Decreto de 1 de julho de 1867). Imprensa Nacional.

Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. (2025, 27 de outubro). Museu de História da Medicina Prof. Maximiano Lemos (MHM). FMUP. https://sigarra.up.pt/fmup/pt/uni_geral.unidade_view?pv_unidade=183